NOVO - CAPÍTULO SETE - JOGAR OU NÃO JOGAR?
CULTURA
Nesta secção iremos explorar a cultura e o folclore que rodeiam o futebol australiano. Nos últimos anos, a AFL testemunhou uma transição que fez o desporto sair dos velhos campos suburbanos intimamente ligados a um só clube, com as suas bancadas expostas à chuva, as suas casas de banho permanentemente entupidas e os seus cachorros quentes húmidos e “baldes” de cerveja, para entrar num novo mundo de estádios ultra-modernos, dotados de todas as comodidades e partilhados por várias equipas, tudo como resultado de uma política de “racionalização”.
O que se perdeu? O que se ganhou? Há semelhanças com o “nosso” futebol e os estádios do Euro 2004? Iremos tentar descobrir.
Para além disso, vamos falar de capitães arrojados, jogos e treinadores lendários, de uma final que ainda hoje é conhecida por “O Banho de Sangue”, de jogos disputados no interior profundo da Austrália, em campos japoneses de prisioneiros de guerra durante a Segunda Guerra Mundial e em plena Europa, durante a Primeira. Explicaremos a origem da “Regra Pai e Filho”, apresentaremos as claques e mostraremos as bandeiras gigantes de papel que os jogadores atravessam antes de cada jogo. Contaremos a história das Medalhas Brownlow, Magarey e Sandover, que distinguem, respectivamente, os “melhores e mais correctos” jogadores da AFL, SANFL e WAFL.
CAPÍTULO SETE - JOGAR OU NÃO JOGAR?
Na Austrália, a Primeira Guerra Mundial é vista como uma espécie de epopeia fundadora da nacionalidade. A federação das várias colónias australianas num só país ocorrera em 1901, treze anos antes do início da guerra, e foi a participação das tropas australianas no conflito, especialmente na campanha de Gallipoli, que foi um fracasso do ponto de vista militar, mas que é vista como uma prova das qualidades de resistência perante a adversidade e de camaradagem que os australianos reclamam como suas, que deu origem ao sentimento de que a Austrália era de facto um só país. Ainda hoje a cada 25 de Abril (aniversário do desembarque em Gallipoli) milhares de australianos se deslocam à Turquia, ao local onde os soldados australianos desembarcaram, para prestar a sua homenagem aos homens de 1915.
Para a Victorian Football League (VFL), no entanto, a guerra foi a causa de um dilema: jogar ou não jogar? Estando o país em guerra, sendo os jovens necessários nos campos de batalha e não no terreno de jogo, não seria o mais correcto suspender o campeonato? Este dilema foi a origem de uma discussão que acabou por se espalhar a toda a sociedade e lembrar, mais uma vez, a existência de duas Austrálias, uma popular e uma "oficial", com aspirações diferentes e com modos e filosofias de vida igualmente diversos.
Para a Austrália "oficial", para o "establishment", não havia dúvidas, o campeonato deveria ser suspenso, não fazia sentido que jovens fisicamente aptos continuassem a jogar futebol australiano enquanto os seus pares se alistavam no exército e partiam para a guerra. Todo o país deveria dedicar-se unicamente ao esforço de guerra, sem excepções. A Austrália "popular", no entanto, discordava e lançava a acusação de hipocrisia. Se o problema era a prática de desporto durante a guerra, porquê então se reclamava apenas a suspensão da VFL? Porque é que ninguém pedia que se deixasse de jogar ténis, ou golfe? Para os "populares" e para os clubes "operários" da VFL, na altura o Carlton, o Collingwood, o Fitzroy ou o Richmond, era claro que o que se pretendia, mais uma vez, era sacrificar a classe trabalhadora, privando-a do seu principal entretenimento, enquanto que os desportos "burgueses" do golfe e do ténis podiam continuar.
Se, por um lado, homens como o Dr. W.C. McClelland, presidente do Melbourne, afirmavam que alistar-se era um dever dos futebolistas, ou que, perante as baixas crescentes sofridas pelas tropas australianas, seria incorrecto continuar a praticar desporto, por outro lado o treinador do Carlton, John Worral, respondia que cabia a cada indivíduo definir os seus deveres morais e que a suspensão do campeonato levaria mais homens a embebedar-se do que a alistar-se. Para os clubes "populares", a questão não se punha em termos da existência ou não de um dever de auxiliar o esforço de guerra - o que era inaceitável era que se procurasse coagir as pessoas a fazê-lo, sem as deixar decidir por elas próprias. Para mais, a Austrália era totalmente alheia às disputas entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, país cuja participação na guerra ditara a da própria Austrália, enquanto membro do Império. E nada opunha a Austrália à Turquia, o país que as suas tropas iam agora invadir.
Worral acabou por estar mais perto da verdade, pois foram os clubes quem, individualmente, optou por continuar ou não a jogar. O University, admitido na liga em 1908, já nem disputou a época de 1915 - clube eminentemente de classe média e susceptível aos apelos da Pátria, muitos dos seus jogadores, todos eles licenciados, alistaram-se nas forças armadas, deixando o clube (que em 1912 ganhara um jogo e em 1913 e 1914 não ganhara nenhum) sem condições de continuar a disputar o campeonato. O University acabou assim por ser integrado no Melbourne, clube apoiado pela mesma classe social e representante do "establishment" por excelência.
Em 1915 o St. Kilda quis projectar uma imagem de patriotismo e abandonou o seu equipamento tradicional alvo-rubro-negro (as cores da bandeira do Reich alemão), adoptando uma camisa às riscas negras, amarelas e vermelhas, que simbolizavam a bandeira da Bélgica, o país cuja invasão pelos alemães desencadeara a guerra. Por coincidência, a primeira jornada disputou-se em 24 de Abril de 1915, ou seja um dia antes do desembarque das tropas australianas em Gallipoli. Durante a época de 1915 a discussão sobre se seria mais correcto continuar o campeonato ou suspendê-lo não cessou. L.A. Adamson, presidente da Associação Amadora de Futebol, chegou a afirmar que os vencedores do campeonato, em vez das tradicionais medalhas, deveriam receber a "Cruz de Ferro" alemã, tal seria a traição à Pátria cometida pelos que queriam continuar a jogar. A Victorian Football Association, liga rival da VFL, suspendeu a sua competição logo em 1915.
O Essendon (clube ligado à classe média, o que se refere porque esta divisão social teve um papel determinante nos factos que se descrevem) propusera a suspensão do campeonato já em 1915, moção que fora derrotada na Assembleia-Geral Anual da Liga. A mesma proposta foi apresentada antes do início da época de 1916, tendo sido apoiada por cinco dos nove clubes (Essendon, Geelong, Melbourne, St. Kilda e South Melbourne), sem que, contudo, fosse atingida a maioria de dois terços requerida para a aprovação da proposta. No entanto, os cinco clubes que tinham votado a favor da suspensão da liga decidiram não participar na época seguinte, deixando sozinhos o Carlton, o Collingwood, o Fitzroy e o Richmond.
A época de 1916 acabou assim por ser a que foi disputada por menos clubes (quatro, a quatro voltas) e ficou célebre por ter sido a única em que um clube foi "lanterna vermelha" e campeão no mesmo ano. Com apenas quatro clubes, todas as equipas ficaram automaticamente apuradas para a fase final e a classificação final apenas serviu para determinar a posição de cada clube na mesma fase, sendo que o clube melhor classificado, caso não vencesse a fase final, teria o direito de desafiar o vencedor para uma "grande final". No fim da época regular o Fitzroy era último com duas vitórias, nove derrotas e um empate. No entanto, na fase final o FFC superou todas as expectativas e derrotou o Collingwood por 9.9(63) a 8.9(57) na primeira meia-final e o Carlton (primeiro classificado) por 9.11(65) a 5.12(42) na final. Houve assim lugar a "grande final", com o Fitzroy a derrotar de novo o Carlton, desta vez por margem ainda maior, 12.13(85) a 8.8(56).
Em 1917 o Geelong e o South Melbourne voltaram à competição (vencida pelo Collingwood, que contou com um talismã feito a partir de munições alemãs enviado por um ex-jogador do clube que estava em França com a força expedicionária australiana, o que talvez indicará que os soldados que se encontravam na frente não se opunham a que o campeonato prosseguisse), em 1918 foi a vez do St. Kilda e em 1919 o Melbourne regressou finalmente, sem que o seu patriotismo fosse recompensado- perdeu todos os 16 jogos que disputou.
Ficou a memória dos anos da guerra, dos anos em que os sargentos recrutadores eram convidados para ir pedir voluntários aos estádios, mas eram corridos (algumas vezes sob ameaças de agressão) quando iam aos campos do Collingwood ou do Carlton ou dos outros "populares", ou em que o Primeiro Ministro que pretendia introduzir o recrutamento compulsivo era recebido com palmas dos "cativos" e assobios das "superiores".
Hoje toda a Austrália honra os soldados de 1915 e a AFL disputa um jogo em sua homenagem (Essendon-Collingwood) a cada 25 de Abril. No entanto, ficou também para a história a determinação de alguns australianos que optaram por continuar a jogar o seu jogo e viver as suas vidas do modo que tinham escolhido, considerando que os sacrifícios que faziam no dia a dia eram mais do que suficientes para justificar que continuassem a poder praticar e assistir o seu desporto favorito. E ficou a lembrança das divisões latentes na sociedade australiana, trazidas à luz do dia pela experiência traumática da guerra.
As fontes principais deste artigo foram os livros "100 Years of Australian Football" (vários autores) e "Up Where, Cazaly?" de Leonie Sandercock e Ian Turner.
29/6/08
CAPÍTULO SEIS - O MAIS CORRECTO E MAIS BRILHANTE
William Ashley Magarey nasceu em 1868 e faleceu em 1929. Os seus avós paternos eram naturais do território que hoje é a Irlanda do Norte. Em 1841 o seu pai e o seu tio decidiram emigrar, escolhendo a Nova Zelândia para fixar residência. Quatro anos mais tarde, optaram por mudar-se novamente, desta feita para a Austrália do Sul, onde prosperaram. O pai de William Ashley Magarey chegou a deputado no parlamento colonial.
O jovem Magarey frequentou o St. Peter's College, a mais conceituada escola da cidade de Adelaide. Ali jogou cricket, praticou remo, lacrosse e algum futebol australiano, para além de se dedicar ao boxe e à luta greco-romana. Com um metro e noventa e um de altura, tinha físico de atleta.
Findos os anos de escola, enveredou pela carreira de advogado e, em 1897 aceitou presidir à direcção (como "chairman") da South Australian Football Association (hoje South Australian National Football League), a principal liga de futebol australiano da colónia, com o mandato de um ano, tendo também a seu cargo a acção disciplinar sobre os jogadores. As penas que aplicava ficaram conhecidas pela sua severidade. Condenou um jogador do South Adelaide a 3 anos de suspensão por ter arremessado a bola contra o árbitro num jogo com o Port Adelaide e por ter, após isso, atirado o próprio árbitro ao chão. Magarey fez saber que a sua intenção fora irradiar definitivamente o atleta e que só aceitara limitar a pena aos 3 anos de suspensão perante o pedido de desculpas por escrito que o mesmo entretanto apresentara.
Em 1898 não aceitou ser reconduzido no seu cargo, mas deu a sua maior contribuição ao futebol australiano na Austrália do Sul ao criar uma medalha, que passaria a doar anualmente, destinada a recompensar o "fairest and most brilliant player", ou seja, o jogador mais correcto e mais brilhante do campeonato. Esta medalha, a Medalha Magarey (Magarey Medal) tornar-se-ia no mais importante galardão individual atribuído pela liga da Austrália do Sul, mantendo viva a memória de William Ashley Magarey, que ainda ocupava o posto honorífico de Presidente da Liga no dia em que morreu.
A início encarada com desconfiança, a medalha fora criada para combater a violência durante os jogos, encorajando o desportivismo, o que foi sempre um dos principais objectivos de Magarey enquanto dirigente.
A princípio a medalha pareceu estar amaldiçoada. O primeiro vencedor (1898) foi Alby Green, do Norwood FC, que terminou a sua carreira futebolística no final da época em que conquistou a medalha, embora tivesse apenas 25 anos de idade, por discordar de uma nova regra de distribuição dos jogadores pelos clubes que o obrigaria a abandonar o Norwood caso continuasse a jogar.
O segundo medalhado foi Stanley Arthur Malin, conhecido por "sailor" (marinheiro), jogador do Port Adelaide FC. Também ele nunca mais jogou na liga da Austrália do Sul após ganhar a medalha, pois mudou-se para Sydney, na colónia de Nova Gales do Sul, onde viria a morrer de febre tifóide em 1903, aos 25 anos de idade.
Não há registo da atribuição do galardão em 1900. Segundo o historiador John Wood, Magarey viajara para a Europa nesse ano e acabou por não estar em Adelaide para doar a medalha na altura em que a mesma deveria ter sido atribuída.
O terceiro vencedor (1901) foi Phillip Thomas Sandland, do North Adelaide. Apesar de ter somente 18 anos e 9 meses quando venceu o troféu, um recorde que duraria até 1982, também ele nunca mais jogou na liga após receber a medalha. A sua época de estreia foi também a da despedida. Foi Tommy MacKenzie, jogador do South Adelaide em 1898 e do West Torrens a partir de 1899, o primeiro vencedor que continuou a jogar depois de medalhado e o primeiro a vencer o troféu mais do que uma vez. Verdadeiro ídolo da sua era, foi considerado o "mais correcto e mais brilhante" em 1902, 1905 e 1906, as duas últimas duas épocas ao serviço do North Adelaide, onde jogou lado a lado com o seu irmão Edward, antes de voltar ao West Torrens em 1909. Gravemente ferido na Primeira Guerra Mundial, Tommy MacKenzie viria a morrer prematuramente em 1927.
Em 1904 a medalha voltou a não ser atribuída, em resultado de ainda ser encarada com reservas por muitas das pessoas ligadas ao futebol australiano na Austrália do Sul. Porém, ao longo dos anos, a atribuição da "Magarey Medal" foi-se tornando num dos pontos altos da época futebolística, sobretudo quando a criação de troféus equivalentes noutros estados, especialmente a "Brownlow Medal", atribuída pela VFL a partir de 1924 ( hoje atribuída pela AFL), provou que Magarey e a Austrália do Sul em geral tinham sido visionários, antecipando-se aos rivais de Victoria no estabelecimento de uma importante tradição.
Desde 1897 muitos e famosos foram os jogadores galardoados. Falaremos agora sobre alguns deles. Homens como Dave Low, vencedor em 1912 e jogador do West Torrens, que acabaria por morrer em combate em 1916, Dan Moriarty, do South Adelaide, único a vencer 3 medalhas consecutivas (1919-1920-1921) ou Walter Scott, do Norwood, vencedor em 1924 e 1930, um dos jogadores mais galardoados da história da SANFL, vencedor do prémio de "melhor e mais correcto" do seu clube em 1920 (com 18 anos, na sua primeira época), 1921, 1926, 1928 e 1930, escolhido para integrar a selecção estadual em 1921, 1922, 1924, 1925, 1926, 1927 (ano em que estabeleceu um recorde australiano ao jogar 28 jogos consecutivos pela selecção estadual), 1929 e 1930, vencedor, ainda, de diversos outros troféus a nível de clube, capitão do Norwood e da Austrália do Sul.
Bruce McGregor, do West Adelaide, foi outro vencedor de mais do que uma medalha (1926-1927) e era considerado um desportista modelo. Jack Sexton, também do West Adelaide, seria outro vencedor (1929) a morrer demasiado jovem, aos vinte e nove anos de idade. Bob Quinn, do Port Adelaide, ganharia o troféu em 1938 e 1945 e demonstraria a mesma têmpera no terreno de jogo e no campo de batalha, tendo sido condecorado pelo seu papel num ataque a um posto fortificado alemão na Segunda Guerra Mundial. Um camarada, vendo-o ferido, disse-lhe que metade da sua cara parecia ter ido pelos ares. Quinn respondeu que qualquer mudança no seu rosto seria uma melhoria. Voltou à Austrália, voltou ao seu PAFC, para ser uma vez mais o "mais correcto e mais brilhante do campeonato".
Bob Hawk, do West Torrens, ganhou a medalha em 1946 e 1947 e foi considerado o melhor do seu clube em nove épocas. Ron Phillips (1948-1949), jogador do North Adelaide, foi o último a ganhar duas medalhas em anos consecutivos até Garry McIntosh em 1994 e 1995. Ficou conhecido por ter ganho em 1948 como médio defensivo (half-back) e em 1949 como médio ofensivo (half-forward), demonstrando assim a sua versatilidade.
Len Fitzgerald, natural de Victoria e jogador do Sturt, ganhou em 1952, 1954 e 1959, para além de ter disputado 97 jogos pelo Collingwood na VFL. Outro triplo vencedor foi Lindsay Head (1955-1958-1963), do West Torrens. Campeão ao serviço desse clube modesto em 1953, integrou a selecção estadual de futebol australiano e a de cricket.
O grande Barrie Robran, para muitos o melhor jogador da SANFL de todos os tempos e ícone do North Adelaide, venceu em 1968, 1970 e 1973. Num jogo de selecções contra Victoria teve a honra de ver uma sua jogada aplaudida por um adversário, Alex Jesaulenko, que foi ele próprio um dos maiores campeões da história do desporto.
Mas nem Robran conseguiria igualar o feito de Russell Ebert, do Port Adelaide, que venceu a medalha quatro vezes, em 1971, 1974, 1976 e 1980. Um campeão à medida do Port Adelaide, bateu todos os recordes de número de jogos disputados e ajudou os alvinegros a sagrarem-se campeões em diversas ocasiões.
O medalhado de 1972, Malcolm Blight, faria o inédito: transferido para o North Melbourne, ganharia também a "Brownlow Medal", em 1978. Conseguiu o feito de se tornar numa lenda em quatro clubes: Woodville Warriors, o modesto clube da SANFL onde jogou, North Melbourne, onde fez parte da "imortal" equipa dos anos setenta, Geelong, equipa que levou a três "Grand Finals" da AFL/VFL já como treinador, e Adelaide Crows, equipa campeã da AFL sob o seu comando técnico.
John Platten venceria a medalha em 1984 pelo Central District e conquistaria a "Brownlow Medal" em 1987 pelo Hawthorn, tornando-se assim o primeiro de dois jogadores que imitaram o feito de Blight. O outro foi Nathan Buckley, vencedor da medalha Magarey enquanto atleta do Port Adelaide em 1992 e da Brownlow enquanto jogador do Collingwood em 2003.
Andrew Jarman, vencedor em 1987 pelo North Adelaide e em 1997 pelo Norwood é um exemplo de jogador da "nova era", após a entrada de clubes da Austrália do Sul para a AFL. Entre 1991 e 1996 jogou pelos Adelaide Crows, regressando à SANFL na época de 1997. Nesta "nova era" a SANFL viu-se subitamente reduzida à categoria de "2.º escalão", vendo grande parte dos adeptos desertar a competição estadual para passarem a dedicar-se exclusivamente aos Crows e ao Port Adelaide Power. No entanto, a SANFL manteve-se e a "Magarey Medal" também, assim se honrando a tradição e os atletas que tanto contribuíram para a popularidade do desporto na Austrália do Sul.
Em 1999 e 2000 o vencedor foi Damian Squire, do Sturt, o último jogador a ganhar em dois anos consecutivos. E em 2003 ganhou Brett Ebert, do Port Adelaide, o filho de Russell Ebert.
O método de atribuição da medalha é igual ao Brownlow, ou seja, após cada jogo os árbitros dão 3, 2 e 1 votos ao melhor, segundo melhor e terceiro melhor em campo, respectivamente, triunfando o jogador que tiver mais votos no final da época. A medalha é sempre diferente, não se repetindo o formato, ao contrário do que acontece com a maioria dos outros troféus.
As fontes principais deste artigo foram o livro "SA Greats - The History of the Magarey Medal", de John Wood, e a página "Full Points Footy".
27/5/08
CAPÍTULO CINCO - FILHOS DO 'SCRAY - PARTE DOIS
Em Outubro de 1989 o futuro dos Footscray Bulldogs estava em dúvida. Ameaçados com uma "fusão" com os Fitzroy Lions (na verdade os Dogs seriam absorvidos pelos Lions, perdendo a sua identidade), os adeptosdo Footscray processaram a liga e obtiveram dezanove dias para recolher um milhão e meio de dólares. Conseguido este prazo, começou a tarefa de reunir os fundos indispensáveis à sobrevivência do clube.
Logo na página inicial deste site se proclama que 2008 será o ano em que se comemoram 150 anos do futebol australiano. Haverá celebrações de toda a espécie, foi já publicada uma mega-história do desporto, haverá um jogo entre a selecção do Estado de Victoria e uma selecção do resto da Austrália, etc. Vamos agora ver "como tudo começou".
No Verão joga-se cricket. Em Inglaterra, tal como na Austrália, esta verdade é incontestável. Este desporto de ritmos lentos necessita de relvados em perfeitas condições, para que a bola ressalte da maneira correcta. Impossível jogá-lo nos campos enlameados de Inverno. Mas o que fazer para que os jogadores de cricket se mantivessem em forma nos meses frios e chuvosos? No século XIX descobriu-se a solução- jogar foot-ball.
Foot-ball, o desporto de Inverno, descendente de jogos indisciplinados disputados por centenas de pessoas. No século XIX, vão começar a ser escritas regras para este jogo. Em 26 de Outubro de 1863 funda-se em Inglaterra a Football Association e nasce a versão moderna do "nosso" futebol. Anos mais tarde será a vez da Rugby Union codificar o râguebi, de seu nome completo "Rugby Football". Mas antes disso já havia foot-ball. Sem regras universais, já dividido entre os que preferiam pontapear a bola e os que gostavam mais de a agarrar e levar nas mãos.
Tom Wills (Thomas Wentworth Wills), australiano, estudara em Inglaterra, a "mãe-pátria" para os leais súbditos australianos do Império Britânico. Voltado à terra natal, tornou-se um jogador de cricket de renome, foi chamado à equipa da então colónia de Victoria. Mas ficara com o "bichinho" do foot-ball, do foot-ball que jogara no Colégio de Rugby, que se tornaria o berço do râguebi. Só que na altura não havia râguebi, nem futebol. Só o indistinto foot-ball, que assumia formas e regras diferentes consoante os locais onde era jogado.
Esse mesmo jogo incerto já era conhecido na Austrália desde a década de 1840. Mas ninguém se lembrara de fixar regras, criar clubes ou ligas. Era tão indistinto e maleável como em Inglaterra ou na Irlanda, donde eram nativos os jogadores.
Em 10 de Julho de 1858, Wills decidiu escrever uma carta, a "carta fundadora do futebol australiano". Dirigiu-a ao "Bell's Life in Victoria", publicação recém-criada. "Senhor", começou, "agora que o cricket foi posto de parte por alguns meses e que os seus jogadores assumiram uma forma semelhante à da crisálida (só por algum tempo, é verdade), mas sendo certo que, em devido tempo, explodirão de novo em todas as suas cores variadas, em vez de permitir que este estado de torpor se apodere deles e entorpeça os seus membros ainda flexíveis, porque não poderiam eles, digo eu, formar um clube de foot-ball e formar um comité de três ou mais pessoas que elabore um código de regras? Se um clube deste género fosse criado, seria bastante benéfico para qualquer campo de cricket, pois a relva pisada tornar-se-ia muito mais firme e duradoura; além disso, impediria que aqueles com tendência para a corpulência ficassem com as suas articulações envolvidas por carne superabundante e inútil". A carta continuava, sugerindo, em alternativa, a criação de um clube de tiro.
James "Jerry" Bryant, dono do Bryant's Parade Hotel, ex-cricketer do condado de Surrey (Inglaterra), o primeiro profissional a ser contratado pelo Melbourne Cricket Club, tinha ideias semelhantes e no dia 31 de Julho de 1858 fez publicar no mesmo Bell's Life um anúncio em que se informavam os leitores que Bryant, nessa mesma tarde, forneceria uma bola a quem quisesse jogar no parque de Yarra, em frente ao seu hotel. Parece que se seguiu um jogo bizarro, com ingleses, irlandeses e escoceses a seguirem cada um as suas regras.
As sementes do foot-ball tinham sido lançadas e em 7 de Agosto de 1858 foi disputado aquele a que se atribuiu o título de "primeiro jogo da história do futebol australiano". As equipas das escolas "Scotch College" e "Church of England Grammar School" (Melbourne Grammar), esta fundada em 7 de Abril do mesmo ano, precisamente quatro meses antes do jogo, defrontaram-se no parque adjacente ao Melbourne Cricket Ground, o Estádio de Cricket de Melbourne, também conhecido como "a casa do futebol australiano".
A partida começou por volta do meio dia, jogando-se num terreno vasto e com uma elevação no meio, que impedia que uma das balizas fosse visível para quem estivesse junto à outra. Aliás, os "postes" não eram mais do que os gigantescos eucaliptos existentes no local. Antes do jogo começar, foram escolhidos dois árbitros, cada um representando uma das equipas. Tom Wills foi escolhido pela Melbourne Grammar, o escocês John MacAdam, em honra do qual foram baptizadas as nozes de macadamia, foi eleito pelo Scotch College.
O jogo durou toda a tarde, até que o Sol se pôs por volta das cinco horas. Com três horas de jogo, a equipa de Scotch College marcou um golo e terá havido, imediatamente após esse acontecimento histórico, uma pausa para refrescos e comida. Findo este "intervalo", Melbourne Grammar conseguiu empatar antes que o Sol se pusesse.
A continuação do jogo foi aprazada para duas semanas depois e, ninguém tendo conseguido marcar, foi agendada nova continuação após outro intervalo de duas semanas, sem que alguma das equipas lograsse obter novo golo. O jogo foi então declarado findo e empatado.
Começara a história do futebol australiano. A partida disputada nessa longínqua tarde de há 150 anos atrás pouco tinha a ver com a versão moderna do jogo. Não havia "behinds", só um par de postes, se um adversário tocasse na bola antes dela entrar na baliza, não era golo (essa regra sobrevive ainda hoje, se a bola é tocada por alguém depois de ter sido pontapeada e antes de entrar na baliza, não é golo, mas sim "behind"), o número de jogadores era descomunal, etc. Embora as primeiras regras se tenham publicado logo em 1859, demoraria muito até que o desporto evoluísse até se tornar reconhecível aos olhos de um observador actual.
Nos primeiros tempos usavam-se bolas redondas ou ovais indistintamente, não havia as "marks" espectaculares que hoje tanto entusiasmam os espectadores, os campos podiam ser rectangulares ou mesmo desprovidos de qualquer forma regular, os jogadores deslocavam-se em formação, como no râguebi, com a bola algures no meio, sendo possível marcar golo se os jogadores conseguissem passar a linha de baliza com a bola perdida no interior da formação.
Mas fora dado o primeiro passo. Isolados do resto do mundo, os cidadãos de Melbourne dedicaram-se a inventar as suas próprias regras, apareceram clubes e, em 1877, as primeiras duas ligas organizadas, uma em Victoria, a Victorian Football Association, hoje Victorian Football League, outra na Austrália do Sul que, após muitas mudanças de nome, chegou aos nossos dias como South Australian National Football League.
150 anos depois, o jogo ainda continua.
(24/4/08)
A fonte principal deste artigo foi o livro "A Game of our own" de Geoffrey Blainey.
CAPÍTULO DOIS - TAL PAI, TAL FILHO
Nas equipas das pequenas cidades do interior é comum que as equipas alinhem com os filhos, netos ou bisnetos de jogadores do passado. Nessas localidades onde só costuma haver uma equipa é de todo natural que as mesmas famílias forneçam os jogadores à medida que o tempo passa, de geração em geração.
No entanto, na "poderosa" AFL passa-se algo de semelhante: reunidos certos pressupostos, nomeadamente o pai ter jogado mais de 100 jogos por um clube, um jogador pode ficar excluído das regras normais do recrutamento (que passam pela inclusão num "draft" nacional, no qual os clubes que ficaram nos últimos lugares na época antecedente detêm o direito a escolher primeiro) e ser contratado pelo clube "paterno", desde que este renuncie a uma das suas escolhas no "draft". É a chamada "father-son-rule", a "regra-pai-e-filho", ao abrigo do qual se têm criado verdadeiras dinastias em algumas equipas. O ano passado os campeões Geelong alinhavam com os irmãos Gary e Nathan Ablett, filhos da lenda do clube Gary Ablett, Sénior. O mítico Ted Whitten, do Footscray, viu o seu filho Ted, Jr. jogar pelo mesmo clube. E estes são apenas dois exemplos.
Esta regra foi criada numa situação muito especial, permitindo àquele que viria a tornar-se um dos maiores jogadores de todos os tempos influenciar as regras do jogo quando ainda era uma criança e antes de ter, obviamente, alinhado por um clube da então Victorian Football League.
Em 1941 a Austrália estava em guerra. Como membro leal do Império Britânico, os seus soldados lutavam contra as forças do Eixo em todas as frentes. De Tobruk, na Líbia, chegaram um dia notícias tristes para o futebol australiano: o antigo jogador do Melbourne e campeão Ronald Barassi fora morto. Enquanto o toque de silêncio soava no Melbourne Cricket Ground e os ex-companheiros de equipa do falecido cumpriam um minuto de homenagem, uma questão assaltava já os dirigentes do clube: como ajudar a viúva e o filho do ex-jogador?
De acordo com as regras vigentes sobre o recrutamento de jogadores, caso o pequeno Ronald Dale Barassi quisesse jogar na Liga, teria que ingressar no Carlton FC, devido ao seu local de residência. O Melbourne não queria deixar que isso acontecesse e pressionou a Liga para passar a isentar os filhos de jogadores das regras do recrutamento. O jovem Ronald Barassi, Jr. teria que ser jogador do Melbourne, nem se podia imaginar outra coisa.
A VFL aceitou e criou a father-son-rule. Barassi cresceu e tornou-se, representando o Melbourne, um dos maiores jogadores de futebol australiano da história, ajudando a sua equipa a conquistar os campeonatos de 1955, 1956, 1957, 1959, 1960 e 1964.
Quando a sua mãe decidiu mudar-se para a Tasmânia, Barassi, então adolescente, passou a viver na casa do treinador do Melbourne, o incomparável Norm Smith. O mesmo Norm Smith que, após a época de 1964, aceitou que o seu pupilo se transferisse para o Carlton, que lhe oferecera o lugar de treinador-jogador e um salário muito mais elevado do que o que ganhava no Melbourne. Esta "deserção" causou escândalo, dizia-se que havia crianças inconsoláveis, outras que queimaram as suas camisolas com o n.º 31 de Barassi, outras que, mais económicas, se limitaram a descoser os algarismos. Mas Smith compreendeu que aquele seu "filho adoptivo" estava perante uma oportunidade única, que não podia desperdiçar.
No Carlton, Barassi conquistou os campeonatos de 1968 (o primeiro do clube em quase 30 anos) como treinador-jogador e 1970 (depois de o Carlton estar perder ao intervalo por 44 pontos) como treinador. Passaria em seguida para o North Melbourne, que nunca tinha sido campeão, mas que o foi sob o seu comando, em 1975 e 1977.
Em 1981, porém, voltou ao Melbourne , na altura uma dos clubes mais fracos da liga. Não foi campeão, mas construiu uma boa equipa. Afinal de contas, o bom filho à casa torna...
(18/4/08)
CAPÍTULO UM - BEM-VINDOS À JORNADA DA RIVALIDADE!
A terceira jornada da Australian Football League, a disputar entre os dias 4 e 6 de Abril de 2008, será a "Rivalry Round", a jornada da rivalidade. A Liga emparelhou as dezasseis equipas de modo a que cada uma delas defronte um rival tradicional (mais ou menos).
Os oito pares:
FOOTSCRAY (WESTERN BULLDOGS) ST.KILDA SAINTS
Estes clubes não são particularmente rivais um do outro. De certa maneira, "sobraram" e foram emparelhados um com o outro. Partilham, no entanto, duas características: ambos se sagraram campeões por uma só vez (os "Dogs" em 1954 e os "Saints" em 1966) e ambos têm adeptos particularmente fiéis e sofredores, que idolatram os seus heróis.
NORTH MELBOURNE KANGAROOS HAWTHORN HAWKS
A rivalidade entre os "Kangaroos" e os "Hawks" foi forjada nos anos setenta, durante os quais ambos os clubes viveram uma época de ouro e disputaram entre si vários jogos decisivos, incluindo as "Grand Finals" de 1975 (ganha pelo North Melbourne), 1976 e 1978 (ganhas pelo Hawthorn). Eram os tempos de jogadores e treinadores lendários, tais como o campeão Malcom Blight, oriundo da Austrália do Sul e o super-treinador Ron Barassi, do North, e os "grandes" Leigh "Letal" Matthews e Peter Crimmins (que morreu tragicamente de cancro em 1976) dos Hawks.
WEST COAST EAGLES FREMANTLE DOCKERS
O "derby" da Austrália Ocidental, arduamente disputado, embora ambas as equipas sejam relativamente "jovens". Teoricamente, as "Águias" representam a cidade de Perth e as pessoas mais abastadas, enquanto que os "Estivadores" são a equipa do porto de Fremantle, vizinho da dita Perth, e da classe operária. Esta rivalidade dá continuação à tradição secular da Austrália Ocidental em matéria de futebol australiano.
BRISBANE LIONS SYDNEY SWANS
Os estados de Queensland e Nova Gales do Sul são tradicionalmente rivais... no râguebi. Nestes estados, é essa a modalidade preferida da população, quer na variante de 13 (rugby league), quer na variante de 15 (rugby union). Esta rivalidade também se transferiu para as equipas dos respectivos estados na AFL, os "Leões" de Queensland e os "Cisnes" de Nova Gales do Sul.
Convém lembrar que os "Lions" resultaram da fusão entre os Brisbane Bears e os Fitzroy Lions, equipa de Melbourne e rival tradicional dos seus vizinhos de Collingwood. Por sua vez, os "Swans" iniciaram a sua existência em South Melbourne, sendo então grandes rivais do St. Kilda.
ESSENDON BOMBERS CARLTON BLUES
As duas equipas com mais títulos de campeão da VFL/AFL: dezasseis. Dois dos grandes do desporto e rivais tradicionais. Os "Azuis" de Carlton começaram como clube da classe operária, mas aburguesaram-se com os anos. Os "Bombardeiros" de Essendon sempre foram um clube "distinto". Os (muitos) adeptos de ambas as equipas são tradicionalmente protestantes. Dois clubes de respeito, embora os últimos anos tenham sido "de vacas magras". Algumas das maiores figuras da história do futebol australiano alinharam por estes emblemas, tal como o mítico John Coleman, dos "Bombers" ou o inesquecível Alex "Jezza" Jesaulenko, dos "Blues".
GEELONG CATS MELBOURNE DEMONS
Mais uma rivalidade que poderá ter sido "fabricada" especialmente para a "jornada da rivalidade". Estes dois clubes são os mais antigos do desporto, fundados em 1858 (Melbourne, embora haja quem considere que o clube foi fundado em 1859) e 1859 (Geelong) e terá sido por isso que foram "emparelhados". Será uma das partidas mais desequilibradas, pois oporá a super-equipa dos "Gatos" de Geelong, campeões em título, aos muito pouco ferozes "Demónios" de Melbourne.
RICHMOND TIGERS COLLINGWOOD MAGPIES
Se o Carlton - Essendon é o duelo dos clubes protestantes e conotados com a classe média, o Richmond - Collingwood é um confronto entre clubes católicos e conotados com a classe operária. Quer os "Tigres" de Richmond, quer as "Pêgas" de Collingwood arrastam multidões e geram paixões desenfreadas. "Eat'em alive, Tigers" (comam-nos vivos, Tigres) é o grito de guerra de Richmond, enquanto que os "Collingwoodites" se gabam de ser o maior clube da Austrália, em qualquer desporto.
Ambos os clubes forneceram grandes "lendas" ao desporto, incluindo o célebre "capitão sangue" do Richmond, Jack Dyer, que além de jogador de futebol australiano era... polícia, e o mítico Jock McHale, treinador do Collingwood durante 39 anos consecutivos.
ADELAIDE CROWS PORT ADELAIDE POWER
É o confronto, o "Showdown", entre os dois clubes da Austrália do Sul, ambos muito recentes, mas ambos respeitados e temidos na liga. Os "Corvos" de Adelaide foram campeões em 1997 e 1998, o "Poder" de Port Adelaide em 2004, para além de ter sido finalista vencido em 2007.
Tal como sucede na Austrália Ocidental, os adeptos dos dois clubes pertencem teoricamente a classes sociais diferentes, os "Corvos" à burguesia, aos "bebedores de Chardonnay", o "Poder" à classe operária. Os Adelaide Crows são o clube com mais sócios na AFL (cerca de 50.000), mas o Port Adelaide contra com uma legião de seguidores leais, para não dizer fanáticos. Toda a Austrália do Sul parará no Domingo, dia 6, às 4 e 10 da tarde, para ver o "Showdown".
(4/4/08)
Nota: os emblemas usados nesta página são emblemas antigos, que já não são usados pelos clubes.



















